Capitulo três

03

A rua do mercado



Ciclo um

Abryele acordou com um susto. A porta da frente batera violentamente. Isso nunca acontecera antes Alixandra sempre foi gentil e delicada em tudo, alguma coisa muito terrível havia acontecido.

- Alix! – Gritou com esforço. – Alix querida! É você?

- Sou eu mamãe.

A resposta foi sufocada, ela esteve chorando até pouco tempo. Sua filha esteve chorando e não havia nada que ela pudesse fazer. Teve muita vontade de chorar, mas se controlou. Uma das poucas alegrias de Alixandra era seu sorriso e ela sabia disso.

Em pouco tempo Alixandra surgiu com o almoço. Ela estava muito abatida e com o braço em uma tipóia. Aquilo foi um choque já que naquela manhã sua filha estava bem.

- O que aconteceu com o seu braço?

Alixandra nem se lembrava mais do seu machucado.

- Hã... Eu cai!

- Caiu? mas caiu aonde?

- No caminho pra escola! Uma mulher no posto de saúde me fez esse curativo e me deu sanduíches. Eles estão muito gostosos.

Sem muita vontade, ela provou os sanduíches; não eram tão bons quanto sua filha fazia parecer. Abryele queria que Alixandra comesse um pouco, mas ela se negava.

- Aconteceu alguma coisa na escola hoje?

Alixandra olhou para mãe com uma expressão desorientada.

- Alguma coisa?

- Sim! O que aconteceu hoje na escola.

- Hoje? Eu... Eu... Eu encontrei Vladimir no horário do lanche; ele me convidou para uma festa hoje à noite.

- É mesmo? – Abryele ficou muito aliviada, compreendia completamente o dilema de sua filha. – E você vai não é mesmo.

- É claro que não mamãe. Eu tenho muito que fazer.

- Não se esforce tanto, você tem que se divertir um pouco.

- Por favor! Que tipo de gente vai a uma festa em plena segunda feira?

- Todo mundo! Estamos em tempo de guerra, mais do que nunca as pessoas têm que se divertir. Você tem que se divertir.

- Eu ainda tenho que trabalhar mamãe. Acho que não vou ter tempo.

- Você sempre consegue um tempinho pra tudo, pode arranjar um tempinho pra você. Se quiser eu ligo pro senhor Mendes, eu tenho certeza que ele não se importaria em deixá-la sair mais cedo.

- Não! Não ligue pra ninguém. Eu falo com o senhor Mendes. Eu resolvo tudo depois.

- Então você me promete que vai a festa?

- Sim eu vou! Eu vou!

Abryele abraçou a filha.

- Viu? Não é nada demais. Era por isso que você estava chorando?

- Eu não estava chorando!

- Não minta pra mim. Você não é boa em mentir.

- Não é nada demais. É só que eu... A Belle...

- Belle Trufeau de novo? O que é que aquela menina má andou aprontando de novo?

- Belle? Ela... Ela...

Abryele pode perceber que era alguma coisa muito ruim. Alixandra explodiu em lagrimas. Nunca vira a sua filha naquele estado antes.

- Os caçadores foram à escola hoje. Disseram que ela era uma bruxa. Laçaram ela como se fosse um animal. Foi horrível. As pessoas aplaudiram. As pessoas aplaudiram. Deram choques nela. Na frente de todo mundo e ninguém fez nada. Nada. Foi horrível.

Abryele abraçou sua filha caridosa que tanto sentia pela perda de Belle. Ela acreditava que compreendia a dor da filha. mas não tinha a idéia de todo o sofrimento de Alixandra naquele momento. Com toda a força segurou seu braço embaixo da cama, longe de sua mãe. Ela queria abraçar a mãe, mas não podia. Não podia. De todos os seus problemas. De toda a dor.

Aquilo doía muito mais.

Ciclo dois

Alixandra pegou uma sacola bem grande e encheu de roupas de homem e em uma sacola menor colocou outras coisas de bastante valor. Deu um beijo de despedida em sua mãe e partiu para o mercado negro.

O cadáver continuava no mesmo lugar que estava naquela manhã. Depois de chorar nos braços de sua mãe ela se sentia mais forte. Mais do que nunca estava vivo em seu coração o motivo pelo qual continuava.

Um grupo de soldados passava nas proximidades.

- Senhor! – Chamou a atenção deles. – Aqui tem um cadáver.

- O que foi? – Perguntou um deles. – o que você quer?

- Eu disse que aqui tem um cadáver.

- Sim eu estou vendo. O que quer que eu faça?

- Hora! Que tire ele daqui.

- Eu não sou lixeira menina. Mais respeito.

- Lixeiro? Ele não é lixo é um ser humano morto.

- Cale a boca! – Gritou o soldado mais velho fazendo sinal para irem embora. - Já vi cadáveres de mais no campo de batalha.

Alixandra olhou para o cadáver e compreendeu. A guerra revelava as profundezas da alma humana. Todos estavam preocupados demais em sobreviver para se preocupar se o vizinho estava vivo ou morto. Belle havia partido, mas ela continuava. Com dificuldade pegou o saco de roupas e continuou para o mercado.

Dona Abryele acreditava que sua filha ia trabalhar todas as tardes como faxineira para o senhor Mendes no hotel de três estrelas CINCO ESTRELAS.

Desde o bombardeio o hotel estava fechado e o senhor Mendes a muito tinha saído da cidade. A única vez em que ela retornou para o que sobrou do Hotel Cinco estrelas em que trabalhava; foi para procurar o que pilhar.

Há vários quilômetros da sua casa, os saqueadores e comerciantes faziam barganhas em uma grande feira. No inicio Alixandra não queria levar as coisas que pegara nas casas e tinha intenção de devolver, mas as coisas estavam ruins a muito tempo, mesmo antes do bombardeio sua mãe já estava doente e dependia do trabalho dela como faxineira em uma loja. Sem emprego e com a cidade praticamente abandonada, não tinha escolha, a não ser vender tudo o que tinha recolhido. Os primeiros meses de fartura ilusória foram o suficiente para ensiná-la a não vender tudo de uma vez e poupar algo para o futuro. Nas suas primeiras visitas foi enganada varias vezes e com a experiência aprendeu o que fazer para negociar no mercado.

Chegando ao mercado foi até uma barraquinha de comida. Eram os lugares mais abarrotados, era comum que no meio da tarde já não se encontrasse mais comida no mercado. Procurou bastante durante todo o final de semana e não encontrou nem ao menos uma migalha em todo o mercado. Ela trocou um baralho de cartas e alguns brinquedos por alguns bolinhos gordurosos feitos de restos de comida fritos em óleo velho e um copo de água filtrada.

Estava cansada e com fome, nem ao menos sentia o gosto do que estava comendo. Ela atravessou o mercado olhando para as barracas e o rosto das pessoas sem esperança se movendo como zumbis.

Mesmo em dia de semana, à tarde já havia muitas garotas esperando alguém que se interessassem por elas. Algumas eram mais novas do que ela, outras que ela tinha certeza de ter visto na escola viravam o rosto inutilmente para que não fossem reconhecidas por ela. Lá estava Cristina e outras amigas das ex-amigas de Belle fingindo que não a conheciam. A cada dia aumentava o numero de garotas que ela conhecia da escola. Ela analisou todas as garotas que encontrava até parar a frente de uma garota em particular que geralmente não era muito escolhida. Era magra e podia se ver o contorno de suas costelas, mesmo assim não era tão magra quanto ela, não tinha um cabelo horrível como uma vassoura, não tinha marcas de queimadura pelo corpo, não tinha uma mão amaldiçoada.

Nem mesmo isso ela poderia fazer.

Chegando no outro lado do mercado perguntou pelo chapeleiro louco, era um dos códigos do submundo para um dos maiores traficantes da cidade. Ela foi levada até uma casa próximo do mercado aonde um bando de sujeitos mal encarados se aqueciam e conversavam na frente de uma fogueira.

Um sujeito gordo e mal vestido a atendeu. Ela retirou um colar do bolso e lhe entregou.

- É um enfeite bonitinho. - Elogiou o homem gordo.

- É de verdade. - Retificou Alixandra.

- Tem procedência duvidosa. - Continuou o gordo. - Eu pago quinhentinhos.

- E se fosse de verdade? - Desafiou a garota.

- Se você puder provar... - O homem acendeu um charuto muito fedorento. - Se você tivesse como provar que é de verdade, eu te dava no mínimo 50000.

Como uma arma; ela sacou um porta-jóias aberto, com o documento do colar de perolas a mostra. O homem ficou muito zangado e engoliu seco. No fundo da sala, um homem simpático e bonito se levantou rindo e batendo palmas.

- Muito bom. Muito bom. - Ele substituiu o homem gordo e antipático e deu uma boa olhada no documento enquanto escorregou o colar pro bolso.- Você é esperta menina.

Ela havia andado muitas horas carregando muito peso e estava cansada, não tinha humor nem forças pra forçar um sorriso.

- Me chamam de Lebre de Março. - Ele esticou a mão.

- Alix! - Respondeu cumprimentando. - Senhor Lebre de Março.

- Só lebre é mais do que suficiente! - Ele deu uma rápida olhada nela de cima a baixo. - Então! O que vai querer? Um cigarrinho? Algumas bolinhas pra alegra? Você não me parece do tipo que curte agulhas.

- Eu fiz uma encomenda na sexta. - Dizendo isso entregou um papel.

- Sim chegaram algumas coisas hoje. Essas semanas andam loucas, chega no sábado e já não se encontra mais nada em todo o mercado.

- Eu sei. - Respondeu amargamente se lembrando que passou os últimos dois dias sem comer nada.

- Morfina. Você tem gostos bem interessantes. - O rosto do homem foi se tornando cada vez mais serio e preocupado. - Isso não dá barato.

- Minha mãe esta doente. - Respondeu a menina.

Ele deu uma olhada de cima em baixo na menina e olhou o grande saco que estava no chão.

- O que é isso?

- É para o sr Pontes.

- Você precisa de comida? - O sr Pontes era um negociante de comida. - O que tem dentro?

- Roupas de homem.

- Posso ver?

Alixandra concordou. Lebre se levantou e deu uma boa olhada na sacola.

- Roupas de marca. - Comentou. - Consigo mais do que o sr Pontes nisso. - Dizendo isso pegou o saco e levou para dentro.

A garota tentou protestar, mas ele a convidou para entrar e se sentar na cozinha.

Era a cozinha de um restaurante e o cheiro de comida estava inebriante, na mesa havia os restos do que há pouco deveria ter sido um suntuoso banquete e uma belíssima cesta de frutas.

- Do que você precisa? Comida enlatada? Não perecíveis?

- Eu tenho tudo isso. - Respondeu de forma cansada. - Preciso de carne, leite e legumes.

Ele deu uma olhada de cima a baixo na menina.

- Há quanto tempo você não come carne e legumes?

- Não sei.

- Pouco ou mais que um mês?

- Mais.

- E a pessoa que toma esses remédios?

- Também.

- O que ela anda comendo?

- Conservas e pratos prontos.

- Sabe que isso não é muito bom, não é?

- Eu sei. - Respondeu deprimida.

O homem foi até um enorme refrigerador e retirou um saco com o que pareciam brócolis congelados.

- Verduras congeladas. Você pode ter um estoque disso que duram alguns meses.

Ela não podia acreditar no que via, aquilo era muito bom pra ser verdade. Finalmente ela soltou um sorriso.

Lebre retirou alguns pratos do forno e serviu para a menina que salivava como um cachorro.

- O que acha de receber o valor das suas coisas em mercadorias?

- Cinqüenta mil é muita coisa. - Respondeu a menina.

- Não pra mim! Eu posso entregar na sua casa. - Respondeu Lebre olhando com muito interesse para a menina. - Se estiver interessada, eu posso ser de muita ajuda pra você.

- Eu sou muito magra e o meu corpo está muito machucado, - Alixandra compreendeu muito bem, as intenções de Lebre.

- Eu posso te alimentar. - Dizendo isso empurrou algumas cerejas na boca dela. - Tenho tudo o que é necessário, para curar você e a sua mãe.

Aquelas palavras foram tudo o que precisava ouvir. Lebre realmente podia dar tudo o que sua mãe precisava, nada que ele pedisse em troca seria alto demais, em comparação a vida de sua mãe. Mesmo assim, ela nunca poderia aceitar, por causa de sua mão amaldiçoada.

- Seu machucado esta sangrando. - Comentou Lebre apontando para o curativo.

Alixandra nem percebeu que devido ao esforço de carregar o pacote seu machucado havia aberto.

- Eu tenho como que tratar isso.

Rapidamente ele saiu da cozinha e em poucos segundos voltou com uma maleta medica.

- Existe alguma coisa que você não tenha?

- Provavelmente não.

Alix tentou evitar que ele tocasse nas bandagens, mesmo desnutrida e enfraquecida ela poderia ser considerada muito ágil e forte para uma garota da sua idade. Proporcionalmente Lebre era mais muito rápido e forte do que uma pessoa normal. Independente do que tentasse fazer ele a imobilizou. A garota estava completamente a sua mercê. Ele cortou as bandagens e olhou atentamente para o machucado. Toda a simpatia desapareceu do seu rosto.

Ciclo três

Lentamente Lebre analisou o corte no pulso de Alixandra. Apesar dos pontos ainda sangrava abundantemente.

- O que é isso?

- Eu... Eu... Tentei me matar.

- Pelo ângulo do corte é obvio que você mesma que fez isso. - Alixandra tentou se soltar, mas o homem segurou tão forte que mal pode se mover. - Isso não é um corte de quem queria se matar, mas de quem queria cortar a mão fora. Se quisesse se matar não teria cortado tão forte.

Ela não podia mais conter as lagrimas. O desespero tomou conta do seu corpo.

- Por que você não abre sua mão? - Lebre puxou a roupa dela com força revelando as marcas do seu corpo. - Talvez tenham alguma coisa a ver com essas queimaduras em forma de mão no seu corpo?

Ele sabia! Ele sabia! Tudo estava perdido.

Alixandra desesperadamente tentou se soltar, mas ele parecia extasiado ao vê-la sofrer. Procurar o chapeleiro louco fora o pior erro de sua vida. Ele apertou seu pulso com força e para seu desespero sua mão se abriu o calor era tão intenso que formou uma distorção no ar acima da cima palma do tamanho de um melão. Lebre pegou um cigarro e o acendeu aproximando da bola.

- Uma Mera! - Comentou rindo. - Você consegue controlar?

- Não!

- Um Mera espontâneo! - Lebre parecia uma criança encantada com um brinquedo novo. - Há quanto tempo você tem isso?

- Eu não sei!

- Há quanto tempo tem isso? - Ele forçou mais ainda.

- Mais de um mês!

- Quando é que acaba?

- Não acaba!

- Então só para quando você dorme?

- Não! Continua.

- Esta me dizendo, que você tem um Mera espontâneo, constantemente a mais de um mês?

- Sim! - Respondeu chorando desesperada.

- Não me admira que esta tão magra e seca. Com essa coisa te sugando dia e noite é de se admirar que não esteja morta.

Lebre procurou alguma coisa nos bolsos e retirou uma medalha com um grande cordão de contas. Ele murmurou alguma coisa para a medalha e cuidadosamente empurrou a bola de calor e colocou o medalhão na palma de sua mão e enrolou o cordão em volta.

- Como?...

- Nós temos que saber um pouco de tudo, inclusive bruxas.

- Do que esta falando? Eu não estou entendendo. Não vai me entregar?

- Eu não vejo muita vantagem nisso, afinal o que eu faço não é exatamente do agrado dos militares e eu posso conseguir algumas formas de ganhar dinheiro com a sua... Habilidade.

Alixandra não podia acreditar, após todo esse tempo seu tormento havia acabado. Estava frio como se nunca tivesse tido nada. Ela olhou espantada para Lebre chorando de alegria.

Alixandra não tinha palavras pra expressar o que estava sentindo, estava tudo finalmente resolvido.

- Então... - Comentou Lebre enquanto terminava o curativo no braço dela. - Fazemos negocio?

Ciclo quatro

Abryele chorou de tristeza por horas.

Sua doce e dedicada filhinha estava com terríveis problemas: o seguro mal era o suficiente para pagar as contas da casa e ela trabalhava meio período fazendo a limpeza de um hotel, agora estava muito machucada e não parecia que se alimentava muito bem.

Ela queria com todas as forças que Alixandra fosse a festa. Mais do que ninguém ela tinha o direito de se divertir como uma garota normal.

Quando era jovem fazia seus próprios vestidos, tinha certeza que poderia alterar alguns dos seus antigos vestidos. Ela assistia bastante televisão e sabia como as jovens costumavam se vestir, mesmo não tendo muito contato c.

Por quase seis meses Abryele não saiu do seu quarto, com bastante esforço se levantou e se arrastou pelo corredor como fazia para ir ao banheiro do quarto.

Quanto chegou ao corredor alguma coisa terrível subiu pela garganta. Seu quarto e banheiro eram limpos e arrumados, Alixandra estava sempre cuidando para que ela tivesse conforto, mas o resto da casa estava completamente largado como se fosse uma casa abandonada. Havia pilhas de coisas por toda parte, roupas, quadros e aparelhos eletrônicos estavam amontoados pelo chão, em cadeiras e nas mesas.

O quarto de Alixandra estava cheio de roupas por toda parte, seu banheiro estava imundo com dezenas de produtos de limpeza e beleza espalhados.

Por alguns instantes não entendeu o que estava acontecendo, mas logo compreendeu tudo. O noticiário estava sempre falando sobre as pilhagens a casa das pessoas que fugiram para o campo. Os mercados negros aonde contrabandistas e saqueadores vendiam doces e bolos feitos de restos de comida e moças de família vendiam seus corpos em troca de um pouco de comida.

Conhecia muito bem a sua filha e sabia que mentira quando disse sofrera um acidente. Alguém havia machucado sua filhinha, aquele braço enfaixado com manchas de sangue não parecia um acidente. Para seu desespero não havia nada que pudesse fazer.

Procurou em meio às pilhas de roupas, um vestido que pudesse ajustar para sua filhinha. Era a única coisa que podia pensar em fazer. Conforme costurava lembrava de tudo o que aconteceu e se sentiu muito mal. A grande fartura logo após o bombardeio, os últimos meses onde só comia pronta.

Lagrimas corriam pelo seu rosto, ela não podia evitar.

Ciclo cinco

Lebre levou um carro cheio de comida para Alixandra até uma das casas abandonadas próximas a sua. Apesar de tudo ainda não confiava em Lebre e não queria que ele soubesse aonde ela morava de verdade.

O colar de perolas e as roupas que havia dado em troca daquela comida valia muito mais, mesmo assim ela não se importou. Ha quase três meses não comia nada decente e pelo que Lebre havia dito aquela coisa em sua mão direita fazia com que ela precisasse muito mais de comida do que o normal.

Ela não podia se conter de tanta alegria, com o medalhão na sua mão ela não esquentava mais e todos os problemas foram resolvidos. Durante o resto da tarde levou os pacotes de comida para sua casa de verdade por dentro de casas abandonadas e por áreas de risco interditadas. O cadáver ainda estava lá e ninguém havia tomado nenhuma providencia, mesmo assim isso já não a incomodava mais.

Graças ao medalhão conseguia usar melhor o seu braço direito, mesmo assim o curativo que Lebre tinha feito era muito apertado e dificultava pra se mover.

Começou a anoitecer e ainda faltavam algumas caixas, antes de fazer o jantar ela resolveu entregar algumas frutas pra sua mãe.

Sua mãe ficou muito feliz por comer frutas e legumes de novo, toda energia do seu corpo parecia ter sido recuperada, tinha vontade de pular, dançar e cantar.

Ciclo seis

Pouco depois de Abryele terminar de costurar o vestido escutou um barulho, era sua filha que havia acabado de chegar e subia as escadas ruidosamente. Seu rosto parecia que ia explodir de felicidade, carregava um punhado de frutas e um pacote de remédios. Estava afobada e queria que ela comesse.

Quando mostrou o vestido Alixandra teve um choque, mas em poucos momentos mudou para extrema felicidade. O vestido era muito bonito, longo e com mangas compridas, cobria todo o corpo impedindo que se vissem as marcas no seu corpo e com uma tipóia que combinava.

Alixandra ficou muito feliz e colocou o vestido, mas não prometeu que iria a festa, disse que ainda tinha algumas coisas a fazer.

Abryele continuou comendo as frutas e escutando o barulho de sua filha entrando e saindo de casa arrastando caixas pelo chão, pensando que provavelmente ela estava trazendo mais coisas das casas vizinhas.

Em determinado momento alguém lentamente entrou pela sua porta, mas não era sua filha.

Continua...

Capitulo quatro

04

Caça as Bruxas

Ciclo um

No final da tarde Alixandra resolveu terminar de pegar as coisas que havia deixado na outra casa, eram varias caixas de comida, em uma casa razoavelmente distante e era um grande esforço carregá-las com um único braço por isso fazia muitas paradas durante o trajeto.

Para seu assombro quando chegou na casa pode ver que havia gente dentro, sorrateiramente pegou uma das caixas de comida e saiu da casa. Sua sorte é que ela andava pelas áreas interditadas por causa do perigo de desabamento das casas e em particular da bomba que não explodira.

Como agora estava mais sorrateira levou mais tempo carregando a caixa e precisou parar muito mais vezes para descansar. Toda a comida que havia comido a deixou mais lenta.

Quando chegou a vala fora da área interditada estava exausta, mas não queria parar próximo ao cadáver e se esforçou mais ainda, pois estava muito perto. Quando pode avistar sua casa o horror tomou conta do seu corpo e ela deixou a caixa cair no chão a pior coisa que poderia acontecer aconteceu.

Os militares cercavam a casa de Alixandra.

Grandes caminhões do esquadrão de controle de Bruxas estavam parados a sua porta. Sem duvida nenhuma eram os mesmos homens que estavam na escola e levaram Belle naquela manhã.

Talvez as coisas não sejam tão ruins assim, o dia foi cheio de situações desesperadoras aonde se revelaram não tão ruins.

De dentro da casa saiu uma imagem aterradora: O Lebre. O mesmo Lebre que algumas horas atrás, havia ajudado a trazer comida e lhe dado o medalhão que controlou o calor em sua mão.

Ela esfregou os olhos, apavorada. Aquilo não fazia sentido, não podia fazer sentido o que o amigo do maior traficante do mercado negro estava fazendo no meio dos militares? E o pior de tudo: USANDO UM UNIFORME DE OFICIAL!

Atrás dele surgiram dois homens carregando alguma coisa grande, por alguns instantes ela tinha esperança de não ser verdade que fosse mentira. mas não era. Eles estavam com uma espécie de maca levando a sua mãe embora.

Ela tentou olhar enquanto colocavam sua mãe dentro da ambulância, estava com uma mascara no rosto ligada a um tanque de oxigênio e não parecia estar respirando.

Tudo estava acabado. Não havia mais nada a fazer havia perdido a sua casa e a sua mãe não restava mais nada. O professor Rocha tinha toda razão, os caçadores de bruxas estavam por toda parte, infiltrados em qualquer lugar.

Os homens entravam e saiam da casa retirando coisas e colocando em caminhões, toda a comida que havia conseguido, as coisas que pegou nas casas vizinhas e muita coisa dela própria. Não conseguia para de chorar enquanto olhava sua mãe partir com lagrimas nos olhos.

Para seu terror a situação piorou muito, de dentro da casa começaram a sair homens com cães de caça.

Eles já tiveram tempo o suficiente para reconhecer seu cheiro, eles iriam caçá-la como um animal.

Alixandra teve um pequeno descuido e tropeçou na caixa de comida, caindo e fazendo o cadáver rolar para cima dela.

Aquela visão da morte no escuro da noite a aterrorizou, sem pensar, largou o medalhão e tentou se proteger com as duas mãos; principalmente à direita.

Sentiu um clarão e quando abriu os olhos não havia nenhum sinal do corpo, apenas os vestígios de uma leve fumaça que foi dispersa pela brisa.

Levou alguns minutos até ela poder perceber.

Tinha poder para queimar até desintegrar o corpo de um homem adulto

Ciclo dois

Derek Dietrich com seu porte nobre tentava esperar de forma solene por alguma novidade, o que era muito difícil enquanto sua colega Maria Mercedes a todo o momento tombava pra cima dele tentando se manter acordada e na mesa ao lado os desajustados cadetes Rembrandt e Mwangaza ruidosamente jogavam cartas.

Esses dois eram as ultimas pessoas que se imaginaria como cadetes. Rembrandt possuía cabelos longos e negros, um olho azul e outro verde e metade do seu rosto era coberto por tatuagens, Lumina Mwangaza tinha olhos azuis bem puxados, cabelos brancos e pele morena, alem de sua aparência exótica ambos não possuíam nenhum porte militar. Quem visse acreditaria que não passava de uma dupla de bagunceiros fantasiados.

Derek não entendia porque esses dois foram enviados com ele, era o melhor aluno de sua geração, o mais jovem valete entre todos os arcanos menores servindo a rainha de Avalon. Apesar de famosos por suas habilidades eles eram irresponsáveis e insubordinados, suas missões eram famosas por acabarem em desastres e ele sentia que a qualquer momento seriam responsáveis por uma mancha em seu currículo perfeito.

A maior parte das missões dos cadetes consistia em ficar sentado em prontidão na central dos Arcanos como eram chamados oficialmente os magos do reino. Era um exercício de paciência e disciplina e contava muito no relatório das missões. Maria era nova e inexperiente, mas ao menos se esforçava, poderia passar o tempo como geralmente fazia com meditações e exercícios mentais. Só que nas ultimas horas teve que agüentar os dois fazendo caretas e jogando papeizinhos nele.

As caças as bruxas geralmente eram simples verificações de rotina sobre chamadas de paranóicos ou velhas fofoqueiras maldosas. Raramente tinham problemas com os místicos não registrados e o fato de Maria perder o controle naquela manhã o fez parecer um herói aos olhos do comando geral quando assumiu o controle. Ele não pode deixar de sentir pena de Maria que quase chorou por perder o controle. Ninguém realmente esperava que encontrasse duas bruxas aquele dia. Isso mesmo duas bruxas. Aquilo ecoava em sua cabeça o distraindo das mal-criações dos seus colegas. A garota com uma tipóia na classe em que ele estava testando os estudantes não saia de sua cabeça. Podia sentir o poder dela, o olhar dela denunciava que ela era a responsável pelo vandalismo, era uma marca de mão direita com sangue e ela estava com o braço direito em uma tipóia. Derek tentava tirar aquilo da sua cabeça, não era raro encontrar mais de uma bruxa na mesma escola e suas suspeitas devem ficar devidamente guardadas, não seria interessante se descobrissem que ele estava mais interessado em fazer um espetáculo e bancar o herói do que encontrar bruxas. Em mais algumas horas estaria de volta em casa sem nenhum perigo daqueles dois lhe causarem nenhum problema.

A capitã Inazuma era a responsável pelos cadetes e coordenava suas missões. Ela trouxe um oficial jovem e sorridente, lembrava aqueles dois baderneiros.

- Este é o Sargento Mcneil. – Apresentou.

Os jovens, também se apresentaram.

- Vocês podem me chamar de Lebre de Março. - Correspondeu sorridente.

Para seu desapontamento o olharam como se fosse tão interessante quanto um documentário sobre acasalamento de moscas. Com uma expressão desapontada entregou uma pasta para cada um com um relatório.

- Hoje, às 04:23h. No 14° distrito, foi relatado um ato de vandalismo, a perícia foi identificada como sendo de origem mística, que acredito ser uma manifestação de Mera. A suspeita foi identificada como Alixandra Putin, branca, 14 anos.

Derek olhou para a foto e sentiu um aperto no estomago, era a mesma garota que deixara escapar mais cedo. Sargento Mcneil continuou o relatório.

- Às 06:48h. Foi registrada no posto medico c48, com um grave ferimento cortante, aparentemente feito por ela própria. O corte chegou a atingir parte do osso cúbito, a enfermeira registrou tentativa de suicídio e notificou as autoridades escolares.

Maria fez uma cara de aflição, ao ver as fotos tiradas enquanto a garota estava inconsciente.

- Às 09:36h. Foi relatado um incidente de origem mística no colégio Petit Petre, como vocês sabem, às 10:58h. Foi feita uma busca por bruxas, no que terminou com a captura de Belle Trufeau, 15 anos, branca, poder nível Delta.

- Delta? - Mwangaza ficou impressionada. - Não me admira que você tenha perdido o controle. Isso não é coisa pra cadetes.

- Ela tem razão! - Inazuma consolou Mercedes. - Dietrich possui habilidades ao nível de um oficial.

- Por isso que vou precisar de vocês. - Mcneil olhou para Derek serio e preocupado. - Às 15:27h. No 18º distrito, encontrei a suspeita e confirmei que ela era uma bruxa. Ela possuía uma manifestação espontânea de Mera em nível Gama, que não podia controlar, contive a manifestação com um medalhão de proteção. Pude comprovar em primeira mão, que a tensão pode aumentar a força dela de forma imprevisível. De acordo com o relato da garota a manifestação já estava ativa a mais de 30 dias o que a motivou a tentar se livrar de sua mão direita.

- Ela tentou cortar a própria mão? - Maria ficou abismada.

- Isso quer dizer que ela é muito perigosa. - Disse Mwangaza com sangue nos olhos.

- Manifestações Mera, não costumam durar nem um segundo. - Comentou Derek. - Quanto poder ela teria se isso fosse verdade?

- Em torno de iota e Kappa. - Respondeu Mcneil.

- Isso é mais do que o Dietrich. - Comentou Mwangaza espantada.

- Isso é mais do que eu. - Respondeu a Capitã Inazuma.

- mas isso é impossível pra uma novata não registrada. - Maria estava assustada.

- O sr não deteve o poder dela com um medalhão de contenção? - Perguntou Mwangaza com um sorriso malicioso.

- Não é permanente! Ela pode retirá-lo e seu poder não vai durar muito tempo, eu só coloquei para ganhar tempo até chamar uma equipe especializada. Eu estava praticamente sozinho em uma área muito povoada. A destruição do lixo demonstrou que seu poder é mortal. Às 19:47h. Eu fui a casa dela com uma equipe avançada, mas ela não estava lá.

- Não pode encontrá-la pelo medalhão? - Perguntou Dietrich.

- Só temos uma área estimada, e é muito povoada, por isso precisamos de vocês.

- Pra que? - Perguntou Rembrandt desinteressado.

- Vão se infiltrar como simples transeuntes. - Respondeu Mcneil. - Vão abordá-la como se fossem apenas jovens normais.

Rembrandt assoviou chamando a atenção e apontou para o exótico rosto de Mwangaza, e as chamativas tatuagens no seu próprio rosto. - Ta falando serio?

- Esta de noite. - Justificou Mwangaza.

- Ela pode ser muito perigosa! - Advertiu Dietrich obstinado. Ele se sentia culpado por deixá-la escapar apesar de ninguém saber disso e estava disposto a usar quaisquer meios para se redimir. - O que faremos se ela perder o controle?

- Ela é um perigo para ela e todos os outros. - Mcneil acendeu um cigarro e pensou por um instante. - A única coisa que importa é pará-la. Não vejo nenhum motivo pra se arriscar capturando-a viva.

Ciclo três

Alixandra andava pelas ruas desolada carregando as poucas caixas de leite que salvara da ultima caixa de comida. Aquele foi o pior dia de sua vida, não conseguia tirar a idéia de que se tivesse terminado de cortar a sua mão aquela manhã nada disso teria acontecido. Ninguém pensaria que ela tinha tentado se matar, Belle nunca teria sido atacada pelos caçadores de bruxas, nunca teriam descoberto que Belle era uma bruxa, nunca teriam descoberto que ela era uma bruxa. Estaria em casa com sua mãe.

Belle ela não conseguia parar de pensar no que acontecera. Odiava Belle desde o primeiro dia que se conheceram, durante anos a humilhara e fizera sua vida miserável, sempre teve tudo fácil apesar de ser uma pessoa horrível e nunca se esforçar para nada. Queria que ela morresse, que um buraco abrisse na terra e a tragasse, que seu cabelo vistoso pegasse fogo e ela inteira morresse queimada, mas nunca o que aconteceu.

A imagem da colega salivando, sendo arrastada pelo chão, não saia de sua cabeça. Era culpa dela, era uma bruxa e agora tinha trazido problemas para todas as outras bruxas da escola. Eles fariam uma nova busca na escola. Como deixaram ela escapar provavelmente haveria outras, era obvio. Quantas outras não sofreriam o mesmo destino de Belle?

Quando se deu conta estava em uma rua familiar, podia ouvir o som de musica e a movimentação das pessoas. Era a festa do Vladimir, sem perceber havia chegado tão longe.

Sem pensar direito ela se aproximou e foi recebida com sorrisos alegres. Muitos rostos ela já tinha visto na escola, mas nem ao menos sabia seus nomes. Quando era uma criancinha e sua mãe estava bem ela fora a varias festinhas, nunca havia ido sozinha a nenhuma festa em sua vida e definitivamente aquela não era uma festinha de crianças.

Caroline e Anne Marie estavam por lá, geralmente elas não iam muito em festas, mas estavam particularmente animadas por causa da ausência de Belle. Não era segredo que Belle se esforçava pra tornar a vida dos outros miseráveis e algumas garotas preferiam ficar em casa ao encontrá-la em uma festa.

Tudo bem que elas estavam felizes com a ausência de Belle, mas todos na festa pareciam felizes com aquilo. Podia ouvir os murmúrios das conversas sobre a captura de Belle.

- Você parece triste com o que aconteceu! - Percebeu Anne Marie. - Você foi a maior vitima da bruxa, deveria estar feliz.

- Eu tento me convencer que ela mereceu. Ela era má, todo mundo sabe disso. Ela merecia. - Alixandra não agüentava mais, explodiu atraindo a atenção de todos na festa. - Mas... Mas... Foi Horrível!

A solidariedade de seus colegas foi imediata, um grande grupo se formou em volta dela, a ajudaram a se sentar e ofereceram salgadinhos e bebidas. Tinha álcool na bebida, mas ela não se importou estava exausta e faminta.

- Você tem toda razão. - Disse um dos rapazes. - Ela sofreu um destino muito pior do que a morte.

Aquela resposta foi um choque, não esperava que alguém concordasse com isso.

- Não acredito que exista crime que mereça um castigo tão horrível assim. - Outro comentou.

- mas tudo bem! - Caroline concluiu com um sorriso. - Afinal! Ela era uma bruxa, não era uma pessoa de verdade como você.

- Como eu? - Por um terrível instante a mente de Alixandra ficou branca, não sabia onde estava, nem o que estava acontecendo. – Do que vocês estão falando?

- Olha o que ela fez com você! – Disse uma das garotas que andavam com Belle.

- Comigo? – Se espantou Alixandra.

- Todo mundo sabe que ela te colocou mal olhado. – Disse Caroline.

- Mal olhado? – Ela estava com mal olhado? – Como assim?

– Você tem secado assustadoramente nos últimos tempos. – Explicou. - Seus olhos estão fundos até parece um zumbi.

Alixandra colocou as mãos nos olhos, as lagrimas haviam retirado a maior parte da maquilagem que colocara de manhã.

- Esta sempre cansada e com fome, dorme nas aulas e come aquela comida nojenta da escola. – Disse Anne Marie com uma expressão de piedade. – Olha só como você esta comendo.

Como ela esta comendo? Qual é o problema com o jeito que ela come? Ela esta com fome só isso!

- E pra piorar fez você tentar se matar. – Disse uma garota.

- Me matar? – Alixandra não tentou se matar, ela queria se livrar da mão maldita, do estigma que mostrava que ela era uma bruxa.

- Não precisa se preocupar. – Disse Vladimir carinhosamente. – Todo mundo já sabe o que aconteceu.

Vladimir tão gentil e carinhoso. Ela o adorava, ele não sabia que era uma bruxa, não sabia que era sua culpa que Belle teve destino tão horrível. Doía tanto enganá-lo. Ele nunca a perdoaria ele nunca aceitaria que ela é uma bruxa.

- Ora! Nenhuma pessoa de verdade pode ser tão mal assim. – Disse um sujeito com ar de entendido. – Bruxas são monstros!

- Monstros? – Se apavorou Alixandra. Ela não era má, amava sua mãe e só queria o seu bem, não era um monstro precisava de ajuda. A única coisa que fizera de errado fora envolver Belle, condenara uma inocente a um destino pior do que a morte. – Ela não era tão ruim assim. Tinha muitos amigos, fazia coisas boas.

- Encenação para se infiltrar entre nós. – Respondeu uma ex-amiga de Belle que ela já tinha visto varias vezes se prostituindo nas ruas do mercado negro. – Essas coisas se disfarçam das pessoas mais improváveis possível.

- Você tem um coração muito bom. – Disse Vladimir. – Por isso que ela queria destruir você.

- Viu o que ela fez na parede do corredor? – Comentou alguém.

- Os caçadores disseram que se fosse um corpo humano não seria capaz de ser identificado.

Corpo. Pensou. O Corpo do homem próximo à área interditada, ninguém nunca seria capaz de identificá-lo, ninguém nunca saberia o que aconteceu, agora era só uma pilha de cinzas espalhada pelo vento.

- Ela deixou a marca dela para amaldiçoar toda a escola. – Comentou alguém.

Amaldiçoar a escola? – Pensou Alixandra, ela só havia se apoiado na parede. Não era culpa de Belle, ela era a verdadeira bruxa, não havia maldição nenhuma, ela nunca tentou se matar. Ela estava sendo caçada, perdera sua mãe, não tinha para onde voltar.

Continuaram conversando sobre como a casa de Belle não foi afetada pelo bombardeio, como usava seus poderes para que seu pai fosse rico e outras coisas absurdas que ela tinha feito. Era tudo tão horrível. Alixandra se encolheu e cobriu os ouvidos, só queria que tudo parasse.

- Acho melhor te levar para um lugar mais tranqüilo. – Vladimir pegou Alixandra pela mão e levou para o segundo andar. Ele era gentil e compreensivo, sabia que ela precisava sair daquele lugar.

A casa de Vladimir uma dessas casas antigas e tradicionais aonde tudo é grande, no segundo andar a musica alta ficava abafada e ela já começou a se sentir melhor. Ele a levou para um quarto grande com uma cama de casal onde uma garota nua estava deitada de bruços ao lado de garrafas de bebida. Alixandra reconheceu imediatamente. Era a garota magra que sempre via nas ruas do mercado.

- Essa é a Michete. – Apresentou Vladimir. – Ela me contou que você anda fazendo negócios no mercado.

- Eu não sou uma das garotas do mercado. – Explicou Alixandra. Não queria que Vladimir tivesse uma idéia errada sobre ela.

- Não precisa ficar envergonhada. – Vladimir abraçou Alixandra e a levou pra cama. - Eu sempre gostei de você. Fiquei muito feliz quando eu soube que você era uma das garotas do mercado.

O toque carinhoso de Vladimir não parecia mais tão agradável assim.

- Você tem que acreditar em mim. – Implorou. – Eu também gosto de você. mas eu não sou uma das garotas do Mercado.

- Vocês vadias são sempre assim. Ficam fingindo que são boas garotas. Pode ser sincera comigo eu gosto de vadias.

- E ela? – Alixandra apontou para Michete que os olhava com sono, sem muito interesse.

- Ela pode se juntar à gente. Assim fica mais divertido.

- Eu sou muito magra e estou machucada. – Insistiu. – Meu corpo é feio.

- Eu não me importo.

Alixandra já não via mais motivos para resistir. Ela nunca ficaria com Vladimir, era melhor que ele pensasse que era uma das garotas do mercado do que uma bruxa.

- Eu sabia que você era uma vadia. – Disse Vladimir em tom de gloria enquanto retirava a roupa de Alixandra. – Assim como a sua mãe.

- Minha mãe? – Uma terrível energia subiu pelo corpo de Alixandra.

- Tal mãe, tal filha. Duas Vadias maravilhosas.

- MINHA MÃE NÂO É VADIA! – Com as duas pernas Alixandra chutou Vladimir para o outro lado do quarto e se levantou furiosa.

- Minha mãe é maravilhosa. Ela é um anjo ela é...

Ela não existia mais.

Alixandra por alguns instantes tentou compreender o que estava acontecendo, quando sentiu uma queimadura em sua perna. O medalhão estava derretendo. Lebre a enganara, a maldição da sua mão continuava. Correu e se fechou no banheiro, rezando para que ninguém tivesse visto. mas rezar pra quem? Ela era uma bruxa, a manifestação de tudo de ruim que existia. A única coisa que podia fazer era espalhar o mal e a desgraça por onde passasse.

Ela olhou para sua mão direita e para o curativo manchado de sangue, o corte não havia fechado. Nunca iria cicatrizar. Não precisava. Era só abrir o corte e deixar sangrar.

Ciclo quatro

Rembrandt tentava arrumar as bandagens feitas às pressas no seu rosto, mas elas insistiam em sair do lugar.

- Eu realmente tenho que ir fantasiado de múmia? – Reclamou! – Meu disfarce não esta muito convincente.

- Estamos em guerra! – Justificou Dietrich. – Tem milhões de lugares aonde pode se machucar nesta cidade.

- Duvido que incomode mais do que essa peruca e estes óculos. – Criticou Mwangaza tentando seus óculos de gatinho que ficavam caindo. – De que museu vocês tiraram essa coisa?

- Estamos chegando ao local da festa. – Informou Inazuma. – Vocês fazem uma busca e caso localizem o alvo nos informem e continuem com a tocaia. O alvo é potencialmente perigoso, vocês não devem entrar em contato com ele. O cadete Dietrich vai comandar a missão obedeçam todas as suas instruções.

- Positivo e operante senhor! – Rembrandt fez uma continência provocativa.

O furgão parou no final da rua. Todos estavam em roupas civis e ninguém suspeitaria que eram agentes. Capitã Inazuma e um sargento. Ficaram no carro. O sargento Mcneil era muito conhecido entre os estudantes que freqüentavam o mercado negro, pelo disfarce de “Lebre de Março” o traficante, por isso ficou na central.

- Não fomos convidados. – Se lembrou Mercedes preocupada.

- Não precisa de convite nesse tipo de festa. – Respondeu Mwangaza.

- Eu nunca fui a uma festa, não sei como me comportar. – Gemeu Mercedes.

- Então somos dois. – Disse Rembrandt com um sorriso.

- Eu já fui a muitos bailes de cadetes. – Se gabou Dietrich. – Fiquem próximos a mim, pois eu sei me portar.

- Me portar? – Zombou Mwangaza. – Isso não é uma daquelas reuniões de mauricinhos e velhas virgens. Você tem uma placa dizendo que é um quadrado.

- Ela tem razão. – Concordou Rembrandt. - Como sou seu amigo vou te dar uma camiseta com a frase: “Por favor, tirem esse prego da minha bunda”.

- Respeito comigo. – Reclamou Dietrich. – Eu sou seu superior. Nesta missão você presta contas a mim até pra ir ao banheiro. Quero ouvir “por favor”, e “Senhor”.

Mwangaza e Rembrandt prestaram continência e disseram em coro. – Por favor, senhor. Positivo e operante senhor.

- Sim senhor. – Mwangaza prestou uma continência. – Por favor, senhor permissão pra ficar longe do queima-filme senhor. – Dizendo isso virou de costas e foi embora.

- Não me deixe sozinha. – Pediu Mercedes.

- Eu vou te dar um tapa Maria. – Ameaçou Mwangaza enquanto as duas desapareciam na multidão.

Dietrich foi abordado por uma garota antes que pudesse ir atrás delas.

- Oxalá! – Disse a garota. – Um deus nórdico desceu a terra só pra me encontrar. Gostaria de dançar?

- mas é claro! – Respondeu Rembrandt. – Ele veio aqui exatamente pra isso. mas seja gentil porque á a primeira vez dele.

Dietrich ficou muito embaraçado e atrapalhado. mas acabou atraindo a atenção de outras pessoas.

- Eu não conheço você de algum lugar. – Perguntou outra garota já tomando liberdades. – Eu nunca esqueço de um rosto bonito.

- Eu acho que não! Eu sou de fora da cidade.

- Eu sei! – Reconheceu Anne Marie. – Você é o cadete que pegou a Belle, qual é o seu nome mesmo?

- Derek Dietrich! – Respondeu Rembrandt. – Eu sou um grande fã dele. Peçam um autografo.

- O que? – Dietrich ficou completamente desorientado, Rembrandt estragou o disfarce e ainda atraiu as atenções de todo mundo na festa.

- Grande plano senhor, senhor. – Rembrandt cochichou. – Atrair a atenção de todo mundo para que nós possamos localizar o alvo. Vamos chamar de operação João Bobo senhor.

Rembrandt saiu de perto enquanto Dietrich era assediado e foi curtir a festa.

- E ai rapazes aonde eu consigo uma bela cerveja?

- Cerveja? – Disse um dos garotos conversando. – Aqui nós tomamos pinga mesmo. – E entregou um copo.

– A famosa que matou o guarda. – Comentou Rembrandt. – Mé!

- Aonde você se machucou desse jeito? – Perguntou um dos sujeitos.

- É só uma queimadura.

- O que foi que te queimou desse jeito?

- Uma taturana. Elas queimam sabia.

- mas você esta todo enfaixado!

- Era uma taturana grande.

Ciclo cinco

Maria Mercedes não era a jovem mais interessada em festas. Teve uma educação familiar para se tornar uma esposa e mãe. Quando a oportunidade de se tornar uma oficial do exercito chegou, não foi a coisa mais interessante do mundo, a principio, quando começou a receber elogios e ter destaque em sua turma se tornou aos poucos ambiciosa. A idéia de se tornar um membro do alto escalão se tornou seu grande sonho. Um dia teria um grande escritório em uma central imponente, talvez em Camelot. Infelizmente suas habilidades eram em administração não em missões, era tímida e não fazia a mínima idéia do que fazer. Dietrich era a alma da festa, todos comentavam no herói que salvou a escola, ninguém se lembrava da patética cadete que ficou quieta em um canto choramingando. Maria agradeceu e ficou quieta escutando as historias sobre o maravilhoso cadete que capturou a terrível bruxa, A hedionda bruxa que enfeitiçou uma pobre garota, a pobre garota que havia tentado se matar cortando seus pulsos graças ao feitiço da bruxa, a pobre garota que estava neste exato instante com o anfitrião no andar de cima.

Ciclo seis

Lumina Mwangaza tirava um pouco de dinheiro de um bando de otários, em um pequeno jogo de bebidas. Os rapazes já estavam tortos com a bebida enquanto ela não tinha sido nem um pouco afetada.

- Lumina! Lumina! – Chamou Mercedes desesperadamente. – O que você esta fazendo?

- Nada demais Maria. – Enxotou a colega como se fosse uma mosca. - Na minha aldeia eu tomava três vezes isso por dia.

- Eu a encontrei! – Anunciou. – Esta no andar de cima.

- Ela morreu?

- Não! Eu quis dizer o andar de cima mesmo.

- Vamos encontrar os rapazes. - Mwangaza se levantou e colocou o copo nas mãos de Mercedes.

Rembrandt estava conversando com algumas pessoas em uma mesa.

- Nós a achamos. – Disse Maria entusiasmada.

- Que bom! - Respondeu Rembrandt olhando para o copo na mão dela. – Você andou bebendo?

- Não! – Protestou Mwangaza - Maria a achou, ela esta no andar de cima.

Dietrich pediu licença para a garota. Aparentemente dançar era mais interessante do que ele e pode se aproximar dos três reunidos.

- O que vocês estão fazendo? – Ele olhou para Mercedes pulando sorridente com um copo nas mãos. Ele pegou o copo e cheirou. – Maria! Você andou bebendo?

- Não! Pedro Bó! – Mwangaza estava ficando zangada. - Ela achou a garota.

- Você esqueceu o “por favor, senhor”. – Avisou Rembrandt.

- Não! Por favor, senhor. Pedro Bó senhor. – Repetiu Mwangaza. - Ela achou a garota. Por favor, senhor.

- Aonde ela esta? – Perguntou Dietrich excitado.

- No andar de cima. Por favor, senhor. – Respondeu Maria

- Não começa você também Maria. – Choramingou Dietrich.

- Desculpe senhor.

- Maria vão avisar a comandante. – Dietrich estava com olhos cheios de determinação. Ele nunca deixou ninguém escapar e essa não seria a primeira vez. - Eu vou subir pra confirmar o alvo.

Rembrandt foi junto.

- Aonde você vai? – Perguntou Mwangaza segurando o braço de Rembrandt.

- Ele disse vocês, mas não quem.

Dietrich subiu as escadas e começou a vasculhar os quartos quando escutou.

- Mama mia!

Era Dietrich parado na porta de um quarto.

- O que aconteceu? – Dietrich já esperava pelo pior.

- Esses dois ai. Mandando ver com tudo. – Respondeu Rembrandt.

- Rembrandt você pode fazer o favor de ser serio por um segundo? Temos que achar uma garota.

- Tem uma garota ali!

- Rembrandt!

- Podia ser ela.

- Vamos continuar a procurar.

- E ai garanhão. - Rembrandt chutou o pé da cama e jogou a foto de Alixandra para Vladimir e Michete. – Cadê?

- Ela ta no banheiro! – Respondeu Vladimir.

Dietrich olhou espantado para Rembrandt que fez uma reverencia teatral como se esperasse aplausos.

- O que ela esta fazendo lá dentro? – Perguntou Dietrich.

- Tomando banho pra se preparar pra mim. – Respondeu Vladimir.

- Isso é a prova de que não tem justiça neste mundo. – Rembrandt falou desolado. – Como é que um pereba desses, leva uma deusa dessas pra cama e nem beijo na boca eu já dei. O que eu preciso fazer pra conseguir uma garota assim?

- Depende do que tem a oferecer. – Michete fez sinal de dinheiro com as mãos.

- Há! – Rembrandt descobriu a roda. – Pagando tudo muda de figura. Agora está explicado. Derek me empresta uma grana ai? Senhor.

- Você não pode parar de pensar besteira por um segundo? – Reclamou Dietrich escutando atrás da porta.

- Eu não estou pensando besteira, estou em um grave dilema existencial. Seu pai é rico, você tem dinheiro?

Dietrich ignorou e continuou concentrado na porta.

- Na televisão eles fazem isso com uma arma na mão. – Comentou Rembrandt.

- Silencio! – Reclamou. - Estou tentando confirmar a localização do alvo.

- Quer que eu derrube a porta? – Perguntou Rembrandt.

- Nem pensar. – Protestou Vladimir. – Essa é a minha casa, não vão quebrar nada aqui.

Mal terminou de falar Rembrandt derrubou a porta. Alixandra estava com a mão direita mergulhada na banheira. A água estava vermelha de sangue e borbulhava. O banheiro estava cheio de vapor e por alguns segundos todos ficaram cegos, uma única coisa veio à mente de Rembrandt; “a mão direita”.

Rembrandt agarrou a mão direita dela e por alguns segundos pode ver bem dentro dos olhos dela. Medo. Desespero. Dor. Muita dor. Um grito de dor. Ele olhou para sua mão cheia de sangue escorrendo até o cotovelo e viu o corte no braço dela. Por reflexo a largou, caiu na banheira com água fervendo. A água transbordou por todo o banheiro. Ele pulou rapidamente para não se queimar e se desviou dela.

Ouviu-se uma palavra.

PAGOMA

O ar mudou rapidamente, o vapor se tornou gelado conforme ele entrava no banheiro. A água congelou e o frio mais terrível que já sentira dominou seu corpo. O sangue em seu braço cristalizou, o vapor se transformou em uma fina camada de gelo por todo seu corpo.

Dietrich retirou do bolso um cordão, com um frasco, com um líquido azul. Exatamente como fez com Belle. Este era o destino reservado para a bruxa.

Alixandra não podia ter o mesmo destino de que Belle, ela tinha o poder de destruir um corpo humano, era uma bruxa, seu destino era praticar o mal e espalhar a destruição. Ela preferia a morte a esse destino, mas a até mesmo a morte lhe havia sido negada. Ela levantou sua mão coberta de sangue e gritou.

O líquido azul borbulhou e quebrou o frasco.

Uma onde de choque saia do espaço entre os dois, o vapor era intenso e um estalo forte e constante era quase ensurdecedor. As paredes começaram a rachar, não se sabia se estava frio ou calor.

- Derek! - Rembrandt viu o medalhão de contenção no chão. – Ela derreteu o medalhão de contenção. PARA!

- Não! - gritou Dietrich lançando outro frasco de líquido azul que explodiu no ar. – Eu não vou perder!

Rembrandt saiu do banheiro e escutou um grito seguido de uma explosão.

KLITEVO CHEIMONAS

Metade da casa foi pelos ares.


Continua...

Capitulo cinco

05

Encurralada


Ciclo Um

Alixandra caiu do segundo andar no gramado. Os pedaços da parede ainda estavam no ar, ela ergueu a mão direita para se defender, os destroços se transformavam em cinzas antes de se aproximar dela.

Derek apagou duas vezes antes de conseguir se levantar sentia como se tivesse sido usado para demolir uma casa e quando olhou viu que era exatamente o que tinha acontecido. Conseguiu agarrar a garota, seu corpo era mais leve e frágil do que parecia, teve a sensação que ela ia quebrar como se fosse uma casquinha de sorvete e com as suas ultimas forças gritou.

Ralo

Alixandra sentiu um forte tremor como se todas as suas células fossem chacoalhadas ao mesmo tempo, até seus olhos ficaram formigando.

KLITEVO CHEIMONAS

Novamente o frio veio com uma força terrível, Alixandra sentia suas entranhas se resfriando e a pele rachando. Era muito forte, mas não o suficiente.

Uma onda de choque lançou Dietrich com a força de uma batida de carro, ele não conseguia mais controlar seu corpo que contorcia no ar. Rembrandt o segurou e impediu de se espatifar no chão, com muita dificuldade se levantou. Tinha que atacá-la. Tinha que derrotá-la. Ela era frágil, inexperiente, mais jovem... Estava sangrando... Praticamente morrendo. Como ele poderia ser derrotado por alguém assim?

Com as ultimas forças tentou avançar, mas ela foi mais rápida.

Rembrandt se jogou contra Dietrich e recebeu a maior parte do impacto. A lufada de ar quente o jogou três metros pro alto girando.

Dietrich fora salvo duas vezes pela pessoa que mais detestava no mundo. Ele estava derrotado, tinha que ser o herói. Tinha que desobedecer às ordens e ignorar sua própria segurança pra brincar de herói mais uma vez.

THERAPEVO

Era Rembrandt, salvando sua vida. Sentiu gosto de sangue na boca.

FARMAKO

Achava que seus colegas iam atrapalhá-lo, mas quem estragou tudo foi ele. Se ao menos tivesse obedecido a suas ordens, seu currículo permaneceria impecável. Qualquer problema seria de outro, e teria cumprido suas ordens.

Seu currículo de missões perfeitas estava acabado.

Ciclo dois

A explosão chamou a atenção das garotas no furgão.

Mwangaza pegou um dos bastões elétricos e saiu correndo antes que a comandante pudesse fazer alguma coisa.

- Aonde ela vai? – Inazuma perguntou a Mercedes.

- Lumina adora brigas. – Respondeu.

- Não temos equipamento para enfrentá-la. – Inazuma mal terminou de falar e o camburão guiado pelo sargento Mcneil surgiu. – Maria! Fique com Mcneil vamos tentar evacuar a área.

Muitos garotos estavam assustados, gritos de bombardeio ecoavam por toda parte. Uma multidão corria desesperada a procura de um lugar seguro. Os escombros flutuavam no ar e a nuvem de poeira subia alta. Não era um bombardeio, Lumina já vira um bombardeio antes e o estrago era muito maior.

PIDIMA

Com o comando Lumina saltou e girou no ar acima das pessoas que corriam e atingiu o telhado da casa. O alvo estava no gramado, o ar estava distorcido a sem volta de sua mão direita e a grama queimava, parte de sua roupa também estava em chamas.

Lançou três cordões de contenção, um incinerou no ar, dois atingiram o alvo derrubando-a no chão. Lumina saltou logo em seguida empunhando o bastão elétrico no ar. O cristal com líquido azul borbulhava no centro do bastão, não conseguia absorver tanto poder. O alvo tocou no bastão com a mão direita.

O bastão explodiu jogando Lumina com força no chão.

Com um movimento rápido tomou impulso e usou toda a força do impacto para atingir o alvo, antes de cair no chão. Três socos certeiros, a garota cuspiu sangue e tombou. Poucas pessoas ficariam conscientes após um golpe desses. A garota estava tombada, mais ainda de olhos abertos.

Rapidamente se levantou e se preparou para atacar novamente, mas Rembrandt se jogou nela com toda força.

- O que pensa que esta fazendo? – Reclamou Mwangaza.

- Ela usa Merazoma! – Gritou Rembrandt. – Droga! Preciso de uma carta.

Mwangaza olhou aterrorizada para a cratera no lugar onde ela estava.

Ciclo três

Bombas de pasta térmica explodiram, um grande caminhão apontou um holofote cegando Alixandra. Quatro homens surgiram com os mesmos bastões que pegaram Belle. Alixandra ficou aterrorizada, mal conseguia ficar de pé e respirar, o ar estava cada vez mais quente. Eles iam Pegá-la. Queriam fazer o mesmo que fizeram com Belle.

O holofote estourou, um dos homens laçou o braço direito de Alixandra e sua vara estilhaçou em milhares de pedaços. Conforme avançou os homens saltaram do camburão, que se contorceu em uma forma disforme.

Alixandra olhou em volta. Não havia mais ninguém para enfrentá-la. Ela vencera, era a bruxa mais terrível de todas e aquilo era horrível. Ela foi feita para destruir, era isso que fazia bem.

Rembrandt olhou para ela, desesperada, apavorada, o sangue que saia do seu corte evaporava, suas roupas estavam queimadas, havia marcas de queimadura pelo seu corpo, marcas da própria mão direita. Viu como era frágil e magra. Ela havia derrotado um esquadrão inteiro de caçadores de bruxa e precisava de ajuda.

Alixandra sentiu algo gostoso, era uma espuma fria e agradável, havia mais uma pessoa, uma garota.

Mercedes pegara uma roupa térmica, ela apontava a espuma para o alvo. Todos haviam sido derrotados, só sobrara ela. A espuma deveria ser suficiente para apagar o fogo, dezenas de cristais com líquido azul em sua roupa borbulhavam, os cordões de contenção brilhavam e faiscavam.

Essa era a sua primeira missão, a mais importante de todas que definiria sua verdadeira vocação. Por toda sua vida foi insegura e indecisa, mas pela primeira vez sabia exatamente o que queria. Queria ser um dos Arcanos, queria salvar seus companheiros.

Mwangaza pegou duas varas e laçou o alvo, ela e Mercedes venceriam.

Alixandra olhou para as duas, pateticamente tentando detê-la. Com muita facilidade acabaria com elas e nem mesmo haveria corpo. Ela era má, ela era poderosa, ela era uma bruxa.

PARE

Ciclo quatro

Ele estava parado olhando para ela, com um triste em seus olhos, um azul e outro verde, cabelos negros balançando contra o vento tatuagens no lado direito do corpo e segurando bandagens. Tudo era silencio, não existia mais ninguém no mundo, só os dois.

- Pare! - Ele disse.

- Por quê?

- Você esta morrendo.

- Prefiro morrer a deixar você me pegar.

- Eu não quero te pegar.

- O que você quer fazer?

- Eu quero te salvar.

Delicadamente ele enrolou as bandagens em volta do seu braço, parando o sangramento. Outras pessoas também foram gentis, também disseram que queriam ajudar. Todas mentiram. Ele também estava mentindo. Ele também devia ser queimado. mas ela queria tanto, tanto que fosse verdade. Havia tanta tristeza em seus olhos, sentia que havia mais tristeza do que nela mesma.

- Por que quer me salvar?

- Se eu não te salvar... Quem vai?

- Eu machuquei seus amigos.

- Ninguém morreu.

- Eu destruí tudo.

- Pode ser concertado.

- Eu sou uma bruxa. Eu sou má.

- Não tem que ser.

- É tarde demais.

- Por que?

- Não posso parar.

- Você tem que parar.

- Eu não consigo!

- Eu posso parar pra você.

- Não! É mentira!

- Eu consigo.

- Vai começar de novo depois.

- Eu prometo que não.

Sua mão direita subiu pelo seu braço, era fria e agradável. Ele tocou a palma de sua mão e o calor foi embora. A sensação ruim foi embora. Estava tudo acabado. Não existia mais nada, apenas o seu rosto olhando pra ela.

Ciclo cinco

Quando abriu os olhos a primeira coisa que Alixandra viu foi o rosto de Belle com seus olhos arregalados e a espuma escorrendo pela boca.

Ela saltou de susto, a visão de Belle era horrível, não podia suportar aquele olhar, ela percebeu que ambas estavam nuas, olhou para sua mão e não havia nada abaixo do cotovelo, não havia mão direita.

Estava sozinha com Belle em uma espécie de cela abafada e escura. Uma única porta de ferro velha e enferrujada por onde entrava a luz.

- Já acordou? – Disse uma voz tenebrosa.

- Aonde eu estou? – Perguntou assustada. – Que lugar é esse?

- Sua nova casa.

- O que vocês vão fazer comigo?

- O que quisermos. Ninguém vai ligar para uma bruxa feia como você.

- Eu faço o que vocês quiserem, me deixem sair.

- Você não vai sair. Nunca mais vai ver o sol.

- Eu preciso sair daqui. Por favor.

- Pra que você quer sair? Ninguém se importa com você. Ninguém vai sentir a sua falta.

- Minha mãe se importa! Eu preciso ver a minha mãe.

- Você não precisa ver ninguém. O que você precisa é de punição. Muita punição.

- Por favor, não me machuquem.

- É! Claro que vamos te machucar, você é uma bruxa! Tem que ser machucada, muito machucada.

- Não podem fazer isso comigo. Eu sou um ser humano.

- Não! Você é uma bruxa! Um monstro.

- Eu não sou um monstro.

- Sim você é! Só um monstro faria o que você fez coma sua mãe.

- Minha mãe? O que eu fiz com a minha mãe?

A portinhola se abriu e um pote lentamente foi empurrado porta adentro ele caiu no chão e se abriu derramando o seu conteúdo.

Ela olhou para as cinzas e gritou de horror.

Rembrandt a segurou e a obrigou a deitar novamente na maca.

- Calminha! Foi só um pesadelo.

Alixandra estava deitada em uma maca, estava coberta com cobertores bem quentinhos, uma mascara de oxigênio no rosto e um tubo de soro em seu braço esquerdo. Rembrandt continuava segurando sua mão.

- Você continua me segurando.

- Segurar você é como pegar uma flor. Parece que se eu apertar vai se desmanchar!

- Eu estou morrendo?

- Esta.

- Eu vou morrer?

- Espero que não! Fizemos uma transfusão de emergência e você esta com uma boa quantidade do meu sangue correndo em suas veias.

- Seu sangue?

- Isso mesmo. Tem sorte por ser uma garota. Se um homem tivesse perdido todo esse sangue já teria morrido. Eu doei só um litro pra você e já estou tonto.

- Há quanto tempo esta aqui?

- Algumas horas.

- Desculpe pelo incomodo.

- Não é nenhum incomodo.

- O que vai acontecer agora?

- Você perdeu muito sangue e esta com uma anemia profunda, por isso vão colocar você em coma induzido para que o seu corpo use o menos de energia possível até chegar ao hospital.

- Muito obrigada!

- Pelo que?

- Por contar a verdade.

Finalmente ela sorriu e sentiu paz.

- Acho que só segurar sua mão não será o suficiente.

- Então o que vai fazer?

Ela sentiu os lábios dele delicadamente tocando os seus, seu gosto inundou sua boca que estava seca e novamente a vida parecia entrar no seu corpo.

Ciclo seis

Os jovens estavam todos alvoroçados, duas bruxas no mesmo dia.

O medo das bruxas nunca foi tão grande, tanto Belle quanto Alixandra eram bruxas. A terrível batalha contra os caçadores de bruxas e a destruição da casa de Vladimir foi indescritivelmente perturbadora.

O belo cadete que havia salvado a escola fora retirado de maca assim como Alixandra. Colocaram uma coisa estranha em seu braço direito e ela foi com uma mascara de oxigênio e um tubo de soro.

Já se contaram muitas historias sobre bruxos que deram problemas para serem capturados e até mataram caçadores pra fugir, mas nada como isso.

Belle e Alixandra fingiam que se detestavam, mas eram comparsas? Ninguém sabia o que dizer. As teorias não faziam sentido e as hipóteses não batiam.

Caroline e Anne Marie estavam tremendo, cresceram ao lado de uma bruxa e nunca haviam percebido. O poder de Alixandra era terrível, seus gritos de desespero ainda ecoavam em suas cabeças.

Michete não tirava os olhos do estranho e simpático moreno, as bandagens escondiam tatuagens pelo seu rosto e braço direito. Por horas segurou na mão direita de Alixandra enquanto os médicos tratavam dela. Até que uma moça passou muito tempo desenhando nas faixas que amarraram a mão dela.

A garota morena retirou sua peruca e óculos, revelando um longo cabelo prateado, ela e a outra garota ficaram fazendo desenhos nas paredes e no chão. Enquanto os profissionais cuidavam do lugar.

- Acabamos por aqui! – Informou Mwangaza quando pararam de desenhar.

- Já estamos indo! – Respondeu a capitã Inazuma, quando levava Alixandra para a ambulância. Logo em seguida chamou Lebre. - Sargento Mcneil! Vamos precisar de você.

- Não tem outro? – Reclamou! – Muitos desses garotos me conhecem do mercado. São quase seis meses de disfarce por água abaixo.

- Use uma mascara de gás e um chapéu. – A comandante pegou uma mascara. – Só temos você no momento. Foi um dia cheio e eu quero ir pra casa.

Rembrandt parecia abatido, diferente do seu usual jeito despojado.

- Como começou essa baderna? – Perguntou pra Rembrandt.

- Encontramos o alvo no banheiro. – E apontou para a banheira. – Como pode ver pelas manchas, ela havia cortado o pulso, eu tentei impedi-la e o resto é historia.

- Essa vai entrar pra historia. – Comentou Mcneil. – Vou contar pros meus filhos sobre esse dia.

- Rembrandt assuma seu posto. – Ordenou Inazuma.

Os cincos se posicionaram em frente a um dos círculos que as garotas desenharam e começaram ao que parecia entoar um cântico. Os oficiais saíram da área e obrigaram as pessoas que estavam assistindo a se afastarem. Todos os garotos se juntaram alvoroçados pra olhar. Todo mundo queria saber o que era aquilo.

Mcneil, Mwangaza, Mercedes, Rembrandt e Inazuma colocaram as mãos no chão e gritaram ao mesmo tempo.

RESTORE

As tatuagens de Rembrandt se iluminaram assim como os desenhos, os destroços voltaram para seu lugar de origem, a grama cresceu e o carro se contorceu, todas as coisas destruídas por Alixandra voltaram aos seus respectivos lugares com exceção do líquido azul nos recipientes de cristal que se reconstruíram vazios.

Mas a reconstrução da casa não foi à coisa mais impressionante, muito menos foi lembrada. Ninguém nem ao menos comentou sobre a batalha de Alixandra, o que deixou todos chocados e ecoou pela cidade, foi à descoberta de que os caçadores de bruxas eram bruxas.

Relatório

Segunda ferira, 20:48h. Ano 246, da era de Windsor.

Grupos de divisões de Arcanos oficiais.

A 27° divisão de cadetes de Sephirot liderada pela Comandante Mizuki Inazuma, com o apoio das forças controle de arcanos oficial da cidade de Galita, liderada pelo sargento Bel Mcneil, capturou uma arcana não oficial, de alta periculosidade.

O alvo foi identificado como: Alixandra Putin, branca, 14 anos.

Conforme as suposições do sargento Mcneil o alvo demonstrou manifestações de energia a nível Iota. Superando todas as expectativas o alvo apresentou o uso espontâneo da magia de sexto grau Merazoma.

Nunca antes fora registrado um mago não oficial acima do nível Delta e o caso demonstrou o completo despreparo dos oficiais em uma situação dessa magnitude. O sargento Mcneil levantou a possibilidade de que um prévio encontro com alvos semelhantes tenha culminado na morte de todo o esquadrão.

Até pouco tempo as missões de busca aonde esquadrões inteiros eram exterminados foram atribuídas a warlocks.

(Warlocks ou Dakinis = Ignorando outras interpretações do termo warlock que popularmente possam ter, o termo é usado para definir qualquer pessoa com instrução mágica que se oponha ao reino unido de Avalon).

A sugestão para mudança de procedimento de autoria do sargento Mcneil foi enviada para estudos.

Na captura, o alvo causou sérios danos estruturais no numero 824, da rua 42, do 12° distrito.

O Cadete Derek Dietrich foi ferido durante a operação. Sofreu inúmeras escoriações, contusões e ferimentos internos. Atualmente esta na cidade militar de Tor na ilha das maçãs.

O alvo foi capturado com a ajuda essencial dos cadetes em estado grave.

Sofreu perda de sangue, desnutrição, desidratação, anemia, queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus, hematomas e luxações, envenenamento e degeneração celular.

Os médicos consideraram Inacreditável que tenha sobrevivido a uma manifestação de mera tão longa e ainda conseguiu mais de cinco Merazomas.

O Merazoma é uma magia de alto nível, magos treinados mal conseguem fazer uma por dia e se levantar depois disso.

O alvo será enviado para reabilitação no instituto de Holloway.

Em uma busca na residência do alvo, encontramos sua mãe enferma.

Diagnosticada com Tuberculose, foi identificada como Abryele Putin, 32 anos, branca. Teste adjacente revelou que também possuía habilidades místicas nível Gama. Foi enviada para a o hospital militar da cidade do norte no reino de Camelot.

Alixandra Putin foi registrada como individuo de alta periculosidade.

Classificada como risco a segurança nacional.

Continua...